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DEUS AO GOSTO DO FREGUÊS -- 16/08/2001 -

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religião fast-food
DEUS AO GOSTO DO FREGUÊS

Marieclaire, setembro/2000.
As regras do consumo bateram às portas das igrejas. Das mais tradicionais às alternativas, a ordem agora é agradar ao público fiel. Nessa guerra mercadológica, tem culto para todos: surfistas, gays, famosos e emergentes.

Por Mariana Monteiro e Rachel Lemos

O mercado da fé está em franca expansão. E, como em qualquer outro ramo, o freguês é quem manda. A tendência foi lançada pelas igrejas neopentecostais e rapidamente seguida por outras religiões. Até os católicos, os mais resistentes à nova onda, estão se adaptando à demanda mercadológica. Todos apostam na segmentação para obter sucesso no corpo-a-corpo da caça aos fiéis. "Nesta competição algumas até abrem mão de certas exigências morais e passam a oferecer o que as massas querem", constata o sociólogo Ricardo Mariano, autor do livro "Neopentecostais, Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil".

Sintonizados com os manuais de marketing, daqueles que valem para a venda de qualquer produto, os líderes religiosos atualizam o discurso. Pastores, padres e bispos colocam Deus dentro da embalagem que julgam apropriada. Vale armar uma rede de vôlei na praia para atrair surfistas, como fez a paróquia Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, no Rio de Janeiro. Na briga pela fatia de público jovem, a Renascer em Cristo, em São Paulo, apela para jargões de fácil assimilação, como "Deus é 10", e para a batida do rap. Famosos e emergentes encontram eco para suas necessidades espirituais nos bancos da Sara Nossa Terra, na Barra da Tijuca, território de novos-ricos cariocas. Até grupos de excluídos sentem-se à vontade para pegar carona na segmentação: homossexuais deram um basta à discriminação por parte das religiões tradicionais e fundaram a própria igreja, no centro de São Paulo. É um culto no formato protestante onde gays e lésbicas de diversos credos buscam alívio para a alma, reinterpretando a Bíblia.

Para não continuar perdendo terreno para os evangélicos, os católicos investem no segmento carismático, um movimento polêmico dentro da própria igreja, mas um sucesso de público. Vide as missas do padre Marcelo Rossi. O jesuíta João Batista Libânio, teólogo e autor do livro "A Volta da Disciplina", credita o modismo à tirania do prazer dos tempos modernos. "Estes fiéis querem alegria e festa, mas passam longe dos dogmas", constata o teólogo católico. Segundo ele, não há mais uma religião imposta: "Se a igreja oferece o que o fiel quer, ele fica. Caso contrário, vai embora".

A busca por uma tribo espiritual é vista com naturalidade pelos estudiosos. "As pessoas estão procurando algo que realmente lhes desperte emoção", diz a antropóloga Regina Novaes, pesquisadora do Instituto Superior de Estudos da Religião (ISER). O troca-troca de igrejas é inerente ao fenômeno. Os fiéis do novo milênio não fazem voto de fidelidade a nenhuma doutrina e já foram batizados pelos estudiosos de "os errantes do novo século". Para eles, a promessa de felicidade deve ser imediata. A religiosidade fast-food desloca o foco da pregação do futuro para o presente. "O que importa é estar bem aqui e agora", diz Maria das Dores Machado, da UFRJ, autora de uma pesquisa sobre os pentecostais e a mídia. O céu pode esperar.

Brothers em cristo

"Às vezes, sou obrigado a deixar de surfar para cuidar das coisas da igreja"
Eles pegaram a onda do Senhor. A proximidade da praia faz da Igreja Nossa Senhora da Paz, em Ipanema, uma das preferidas dos surfistas da zona sul carioca. A missa, movida a música do início ao fim, atrai uma galera mais acostumada a se reunir na areia. À frente da liturgia, padre Jorjão sente-se à vontade entre as várias tribos. "Os surfistas vêm aqui porque nossa paróquia é de praia, que é o point da nossa juventude", diz o sacerdote. Ele não veste o figurino tradicional de padre católico. De tênis e batina, o jovem e robusto padre não se furta em dar um pulinho no Sindicato do Chopp, movimentado bar dos arredores, um dos locais preferidos dos fiéis que enchem os bancos da igreja. O bate-papo animado, no seu caso, é regado a suco.

Na missa de orientação carismática, padre Jorjão tenta se manter na crista, adaptando passagens bíblicas para prender a atenção do público juvenil. Ele argumenta que, quando falava com os camponeses, o próprio Jesus usava uma linguagem mais simples. "São João Bosco, santo do século 19, percebeu que os jovens gostavam de circo. Então, passou a aprender malabarismos e acrobacias para atraí-los ao oratório", acrescenta ele. Padre Jorjão usa o esporte. Os jovens da Nossa Senhora da Paz montaram uma rede de vôlei próximo ao posto 9, ponto de encontro e de evangelização. Organizam também partidas de futebol e até luau na praia. Fora da igreja, a bebida é permitida, mas com moderação. "Ninguém anda se embriagando. A gente sabe que a bebida deturpa e que dá vontade de fazer coisas erradas. Nem precisa ninguém regular", afirma a estudante de Direito Michele Cordeiro Franco, de 23 anos.

Os surfistas do padre Jorjão estão espalhados pelos vários grupos jovens da paróquia. Luiz Alves, Bruno Nader e Leonardo Duarte conciliam as manobras em cima da prancha, a evangelização da rapaziada e a organização do já tradicional "Encontro com Cristo". O evento está em sua 36ª edição, acontece duas vezes por ano e tem até fila de inscrição. Mais de cem jovens ficaram de fora do evento, que só tinha capacidade para 77 inscritos. O encontro é destinado a jovens que não costumam freqüentar a igreja regularmente. Os organizadores admitem que o primeiro atrativo não é exatamente Jesus. "Muitos vêm porque tem gente bonita", afirma Luciana Lyra, de 23 anos. "É um encontro de jovens. O "com Cristo" vem depois", esclarece Luiz Alves, o Luizinho.

É nesta segunda fase que apostam os surfistas de Cristo. "O que a galera busca e consegue aqui é felicidade e prosperidade. Arrumam namorado, se ajeitam com as famílias, fazem mais amizades", garante Michele. Seu noivo, Marcelo Soares de Souza, pondera que a maré de sorte pode demorar para chegar: "A mudança não é radical. Tem gente que fica dois, três anos, e só depois Jesus age". Para padre Jorjão, quando o jovem se defronta com o mundo egoísta, ele busca valores, amizades, o sentido mais profundo da vida. "Lido com jovens felizes, que não são chatos e estão longe das drogas", celebra.

Integrantes do grupo de orações da Renovação Carismática, Samir Aros, Guido Schaffer e Eduardo Martins deixaram de andar com a turma da praia fora do horário do surfe. É que, com o engajamento na igreja, os gostos e costumes se tornaram incompatíveis. O consumo de drogas é um divisor de águas. "Tenho pena de quem se droga. Naturalmente termino me afastando dessas pessoas, porque temos caminhos diferentes", diz Samir. Formado em engenharia, Eduardo, de 24 anos, também adora pegar onda. Como fica muito tempo na igreja, já não sai mais com os amigos de antes. Para ele a "alma é grande demais para ser satisfeita pelo que o mundo oferece" e esse vazio só é preenchido quando a pessoa encontra Deus. Mesmo que, para isso, a paixão pelas ondas seja sacrificada. "Às vezes sou obrigado a deixar de surfar para cuidar das coisas da igreja", diz, resignado.

Devoção emergente

"No momento de sua colheita, você não vai abrir mão de nem um grão sequer"
Se não fossem realizados cultos ali, ninguém desconfiaria que o espaço onde funciona a Sara Nossa Terra, na Barra da Tijuca, é uma igreja. No lugar dos tradicionais bancos de madeira, fileiras de cadeiras dispostas como num anfiteatro acomodam os fiéis. No lugar do altar fica um palco, local mais apropriado para receber os vários pregadores, que de microfone em punho dão testemunhos emocionados. No lugar de imagens de Jesus ou de santos brilha um telão. Nele são mostradas as letras das músicas que dão ao culto uma dimensão de show.

Como quase todo domingo, na primeira fila do culto das 19h, a ex-modelo e apresentadora Monique Evans e a cantora Paula Hunter assistem atentamente ao culto e cantam entusiasmadas as músicas que falam de força e confiança para vencer os obstáculos. Monique acredita que a escolha da Sara Nossa Terra foi divina. "Foi Deus quem me colocou aqui", afirma. A confirmação da fé foi rápida. "Logo me achei. Das 30 bênçãos que eu pedi, só faltam duas ser atendidas", contabiliza a modelo, em tom de agradecimento, sem revelar as graças recebidas. Monique acha que sua presença é benéfica à igreja por estar fora dos padrões de bom comportamento e agora se dedicar "à causa de Deus". Monique apresentou até agosto um programa de venda de produtos eróticos e dava conselhos sobre sexo. O bispo Francisco de Almeida Neto olha com benevolência esse aspecto da vida de sua ovelha famosa. "Não existem liberalidades na igreja, mas não posso colocar impedimentos para que as pessoas cheguem. As transformações vão acontecendo depois que elas estão aqui", argumenta. "Monique Evans está num processo de conhecimento de si mesma." Ela se converteu há dois anos.

Ali, famosos como a cantora Baby do Brasil, o comediante Dedé Santana e a modelo Cristina Mortágua (aquela que brigou na Justiça para ter o filho reconhecido pelo jogador Edmundo) se misturam a um público composto principalmente por típicos representantes dos emergentes da Barra. Algumas mulheres têm os cabelos tingidos de loiro, a pele queimada de praia e usam muitas jóias. A pregação atinge os dois universos. "A depressão anda de BMW", brinca o bispo Francisco. "Os ricos é que têm esse tipo de problema. Às vezes porque têm dinheiro demais ou então porque não têm o que acham suficiente." Um temor constante dos fiéis da Sara Nossa Terra é o de perder dinheiro e bens. O bispo nega que adapte a Bíblia para o perfil de seus fiéis. "Não posso dar um jeitinho na Palavra." No entanto, admite que cada igreja ressalta um sotaque próprio. "Cada um ajeita sua casa do jeito que quer." Recém-convertida, Baby do Brasil já arrumou a sua. Pretende abrir sua própria Sara Nossa Terra e lança o primeiro disco gospel da carreira, intitulado "Exclusivo para Deus".

A Sara Nossa Terra é, claramente, uma igreja emergente, que fala sem pudores de progresso material e de força de vontade para conquistar tudo, inclusive dinheiro e fama. As passagens da Bíblia são escolhidas cuidadosamente. Em um domingo do mês de junho, o bispo usa no sermão a história de Gedeão narrada no Velho Testamento -ele é o fiel que enfrentou os inimigos para evitar o roubo da colheita- para ilustrar a trajetória de empresários e artistas que estão na platéia. "No momento da sua colheita, você não vai abrir mão de um grão sequer", brada o bispo, ouvindo um sonoro "Amém!" em resposta. Como Gedeão, os fiéis devem se orgulhar de não fraquejar na hora das dificuldades. Os "medrosos", segundo ele, não são bem-vindos no reino dos céus. "Deus não usa o cristão desanimado", diz. Os desafios do mundo competitivo empresarial são mais uma vez o alvo dos pedidos na oração final. "O inimigo vai ralar", diz o bispo Francisco, mostrando-se à vontade com o uso de gírias. "Ele não vai levar o nosso emprego, a nossa empresa, o membro da nossa família."

Uma das músicas confirma o tom do culto: "Me faz planar sobre as circunstâncias; minha confiança está em ti, meu fiel Senhor", diz a letra escrita no telão. Paula Hunter sabe o refrão de cor. Garante que o clima na Sara Nossa Terra a fez mudar a maneira de encarar a religião. De formação católica, ela tinha preconceito em relação aos evangélicos. "No início achei chato. Mas Deus é um cavalheiro: aos poucos a coisa foi se abrindo", conta ela, que foi levada aos cultos pela mãe. A fé de Paula foi aumentando à medida que os pedidos foram sendo atendidos. "Tive um problema no joelho por causa da malhação. Pedi a Deus que me curasse. Ele me atendeu."

Fé rosa-choque

"Jesus lidou com a sexualidade humana de maneira aberta e com aceitação"

Na Comunidade Cristã Gay, no centro de São Paulo, homens que gostam de homens e mulheres que gostam de mulheres partilham sua fé. Desde 1997, eles se reúnem semanalmente em cultos que lembram muito o das igrejas cristãs convencionais. Há a oração de agradecimento, a leitura do Salmo e a pregação. Não faltam os cânticos, o momento das ofertas, nem a comunhão. As semelhanças, no entanto, param por aí. Os presbíteros que se revezam à frente do culto condenam o uso da palavra de Deus para "linchar" os gays. E, na seqüência, fazem a própria interpretação da Bíblia.

Vários textos do Velho Testamento são utilizados para mostrar que a Bíblia condena o estilo de vida gay. Duas citações são encontradas no livro do Levítico, capítulos 18:22 e 20:13: "Com varão não te deitarás como se fosse mulher", está escrito. Para o paranaense Elias Lilikan, 34 anos, um dos fundadores da igreja, qualquer um que cite essa passagem como uma proibição deveria ler o capítulo inteiro. Ali, o texto bíblico condena também carne de porco, lagosta, camarão, ostras e até o cruzamento de raças de gado. O texto defende a morte para adúlteros.

É uma pregação para aliviar a alma dos que acham que qualquer maneira de amar vale a pena. Elias Lilikan, por exemplo, sentia-se como um peixe fora d"água nos bancos da Assembléia de Deus, uma das igrejas mais rígidas. Em 1997, um grupo de estudantes da USP, entre eles Lilikan, organizou um ciclo de conferências sobre homossexualidade. Surgiu ali a idéia de fundar uma igreja só para o público gay. "Nosso único dogma é não aceitarmos a exclusão", diz Lilikan. As reuniões são a portas fechadas, por medo de represálias.

Além do aspecto religioso, a congregação investe no social. Oferece curso de capacitação de adolescentes e distribui alimentos. "Algo como a Liga das Senhoras Católicas", brinca Lilikan, que volta a falar sério quando usa um argumento que cala fundo no coração do seu rebanho. "Jesus lidou com a sexualidade humana de uma maneira aberta e com aceitação", afirma. "Amém", repetem os fiéis.
Na batida da galera

"Damos uns toques em cima da Palavra. Afinal, ela já tem seis mil anos"
"...Às vezes penso que você se foi/Porque não fala comigo muito tempo depois/ O tempo foi passando e a distância aumentando/A nossa relação ficou por um fio..."
Engana-se quem imagina que os versos acima são de algum grupo famoso de pagode ou o mais novo sucesso de um desses cantores românticos. A canção intitulada "Mais Nada" é uma das faixas do CD "Por Um Fio", da banda evangélica Troad. A relação que ficou por um fio é a de um fiel com Jesus. Com rimas simples e letras de assimilação fácil, o grupo de rap tenta evangelizar jovens. Segue a receita pela qual os próprios integrantes do grupo foram cooptados. A vocalista Rosana Abbud, por exemplo, filha de um músico de jazz, percebeu o novo filão no início dos anos 90. Freqüentadora de uma famosa danceteria da zona oeste de São Paulo, Rosana e sua turma descobriram que poderiam propagar sua fé também por meios, digamos, tortuosos.

Surgia o embrião da Troad, nome da capital de Tróia, que significa "cidade edificada". A banda nasceu com a missão de resgatar para Cristo a galera barra-pesada da noite: malucos de várias tribos, drogados e baderneiros, um dos públicos-alvo da igreja Renascer em Cristo, da qual os integrantes do grupo fazem parte. "Sabíamos que tínhamos um público em busca de paz", diz Rosana. "Só precisávamos levar uma música que não fosse careta. Uma coisa tipo pagode, funk, rock, rap." A batida do rap foi o chamariz e hoje os bancos da igreja estão repletos de uma rapaziada que, normalmente, se encontra nas baladas. Uma parte dessa galera foi parar na Renascer em busca de tratamento para dependência de drogas, um dos programas desenvolvidos pela igreja.

Os integrantes da Troad acreditam que, se falassem abertamente de Deus sem essa espécie de passaporte para a juventude, não obteriam sucesso. Para eles, os jovens estão em busca de uma referência. Mas, se ela não vier por meio do som dançante, fica difícil atingi-los. A linguagem também deve ser repaginada ou, no mínimo, traduzida. "Ao trazer os textos bíblicos para a realidade atual fica mais fácil para os adolescentes compreenderem a nossa mensagem", diz a baterista Rosângela Mayer, a Pitita. "Damos toques em cima da Palavra. Afinal, ela já tem seis mil anos", justifica Rosana, que é bispa da Renascer em Cristo e tem, sob sua responsabilidade, a igreja de Alphaville, condomínio de classe média alta de São Paulo, e a de Miami, para onde viaja a cada dois meses para pregar.

Um bom exemplo dos toques modernizadores na "Palavra" quem dá é o vocalista da Troad, Cláudio Henrique Volpi, 29 anos. Ex-drogado, ele está há dez anos na Renascer e para falar com a rapaziada não alivia: "Costumo dizer que Jesus foi o cara mais maluco que existiu". E vai além em sua teoria: "Ele tentou convencer os judeus de que era filho de Deus, mas ninguém acreditou. Então, decidiu pregar para os "gentios", que são os malucos de hoje em dia". A falta de cerimônia não causa espanto na igreja. A Renascer em Cristo tem como líderes Estevam Hernandez, auto-intitulado "apóstolo", e sua mulher Sônia, que ficou famosa ao aparecer na televisão dando conselhos e repetindo o bordão "Deus é 10!". A fórmula de evangelização dessa igreja neopentecostal, fundada em 1986 numa pizzaria da zona sul de São Paulo, deu certo. Hoje, eles têm mais de 200 templos e fortes tentáculos na mídia. É uma das igrejas evangélicas que mais atraem jovens e a que mais tem integrantes da classe média: 20% de seu rebanho. Muito de seu sucesso vem da fórmula certa de se comunicar: slogans fáceis e música animada. O som da Troad é garantia de que a galera vai encher os bancos da igreja a cada domingo.

Fotos: Dario Zalis
<www.marieclaireon.com.br/edic/ed114/rep_religiao.htm>

 

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